domingo, 15 de novembro de 2020

A dúvida como núcleo do (falso) fundamentalismo.

 


“Além disso, os chamados fundamentalistas, cristãos ou muçulmanos, são realmente fundamentalistas no sentido estrito da palavra? Eles creem mesmo? O que falta neles é uma característica fácil de distinguir em todos os fundamentalistas autênticos, dos budistas tibetanos aos amish norte-americanos: a ausência de ressentimento e inveja, a profunda indiferença ao modo de vida dos não crentes. Se os chamados fundamentalistas de hoje creem realmente ter encontrado o caminho da verdade, por que deveriam se sentir ameaçados pelos não crentes, por que deveriam invejá-los? Quando encontra um hedonista ocidental, o budista dificilmente o condena. Apenas observa com benevolência que a busca de felicidade do hedonista destrói a si mesma. Em contraste com os verdadeiros fundamentalistas, os pseudo-fundamentalistas se sentem profundamente incomodados, intrigados, fascinados pela vida pecaminosa dos não crentes. Percebe-se que, ao combater o outro pecador, combatem a própria tentação. É por isso que os chamados fundamentalistas cristãos ou muçulmanos são uma desgraça para o verdadeiro fundamentalismo.

“O diagnóstico de Yeats em ‘Segunda vinda’ – ‘Aos melhores falta convicção, ao passo que os piores estão cheios de apaixonada intensidade’ – não basta para nossa situação presente: a intensidade apaixonada da multidão muçulmana comprova a falta de verdadeira convicção. No fundo, os fundamentalistas também não têm a verdadeira convicção; suas explosões violentas são a prova disso. Como deve ser frágil a crença do muçulmano que se sente ameaçado por uma caricatura estúpida num jornal dinamarquês de pequena circulação! Os apaixonados protestos fundamentalistas islâmicos não se baseiam na convicção de sua superioridade nem no desejo de proteger sua identidade religiosa e cultural do ataque da civilização consumista global. O problema dos fundamentalistas não é o fato de os considerarmos inferiores a nós, mas de eles mesmos se considerarem intimamente inferiores. É por isso que nossas afirmações condescendentes politicamente corretas de que não nos sentimos superiores a eles só alimentam seu ressentimento e os deixam ainda mais furiosos. O problema não é a diferença cultural (o esforço de preservar sua identidade), mas o fato oposto de que os fundamentalistas já são como nós e, secretamente, já interiorizaram nossos padrões e medem-se por eles. (Isso se aplica claramente ao Dalai Lama, que justifica o budismo tibetano nos termos ocidentais de buscar a felicidade e evitar a dor.) Paradoxalmente, o que falta aos fundamentalistas é justamente uma dose da verdadeira convicção ‘racista’ de sua própria superioridade.
[…]
“Recordamos aqui a ridícula proibição do talibã ao uso de saltos de metal pelas mulheres – como se, mesmo elas estando inteiramente cobertas, o som cantante de seus saltos ainda provocasse os homens... A necessidade de manter as mulheres cobertas com um véu indica um universo extremamente sexualizado, em que o próprio encontro com a mulher é uma provocação a que o homem é incapaz de resistir. A repressão tem de ser forte porque o próprio sexo é forte. Que sociedade é essa em que o barulho dos saltos de metal das mulheres pode fazer os homens explodirem em luxúria? Não admira que, na análise do famoso sonho de ‘Signorelli’ em Sobre a psicopatologia da vida cotidiana, Freud conte que foi um velho muçulmano da Bósnia-Herzegovina que lhe transmitiu a ‘sabedoria’ do sexo como única coisa que faz a vida valer a pena: ‘Quando o homem não é mais capaz de fazer sexo, só lhe resta morrer’.”

(ZIZEK, Slavoj. Vivendo No Fim Dos Tempos. Trad. Maria Beatriz de Medina. São Paulo: Boitempo, 2012 n.p. [epub].)

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