sexta-feira, 13 de novembro de 2020

O problema são os "conflitos étnicos"?


“Em 2001, uma investigação da ONU sobre a exploração ilegal dos recursos naturais do Congo descobriu que o conflito se deve sobretudo ao acesso, controle e comércio de cinco recursos minerais principais: coltan [columbita-tantalita], diamante, cobre, cobalto e ouro. De acordo com essa investigação, a exploração dos recursos naturais do Congo por chefes guerreiros e exércitos estrangeiros é ‘sistêmica e sistemática’; os líderes ugandenses e ruandeses em particular (seguidos de perto por zimbabuanos e angolanos), transformaram a soldadesca em exército comercial: o exército de Ruanda ganhou no mínimo 250 milhões de dólares em 18 meses com a venda de coltan, usado em celulares e laptops. O relatório concluiu que a guerra civil e a desintegração do Congo ‘criaram uma situação em que todos os beligerantes ganham. O único perdedor nesse imenso empreendimento comercial é o povo congolês’. Não devemos esquecer o velho pano de fundo ‘reducionista econômico’, quando ouvimos a mídia falar de paixões étnicas primitivas que ainda irrompem na selva africana. 

"Por trás da fachada de guerra étnica, discernimos, portanto, os contornos do capitalismo global. Depois da queda de Mobutu, o Congo não existe mais como Estado unido; sobretudo a banda oriental é uma multiplicidade de territórios dominados por chefes guerreiros que controlam a região com um exército que, via de regra, inclui crianças drogadas. Cada chefe tem vínculos comerciais com alguma empresa estrangeira que explora as riquezas da região, principalmente minerais. Esse sistema é bom para os dois lados: a empresa consegue os direitos de mineração, livres de impostos e outras complicações, os chefes guerreiros enriquecem. A ironia é que muitos desses minerais são usados em produtos de alta tecnologia, como celulares e laptops. Em resumo: esqueça os costumes selvagens da população local; basta que as empresas estrangeiras de alta tecnologia se retirem para que todo o edifício da guerra étnica, alimentada por antigas paixões, desmorone.” 

(ZIZEK, Slavoj. Vivendo No Fim Dos Tempos. Trad. Maria Beatriz de Medina. São Paulo: Boitempo, 2012 n.p. [epub].)

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