sábado, 14 de novembro de 2020

Época pós-ideológica e fundamentalismo religioso/étnico.


Mas por que essa ascensão da violência religiosamente (ou etnicamente) justificada hoje em dia? Porque vivemos numa época que percebe a si mesma como pós-ideológica. Como as grandes causas públicas não podem mais ser mobilizadas, como nossa ideologia hegemônica nos conclama a gozar a vida para nos realizarmos, é difícil para a maioria dos seres humanos vencer a repulsa contra a tortura e morte de outros seres humanos. A grande maioria das pessoas é espontaneamente ‘moral’: para elas, matar outro ser humano é profundamente traumático. Assim, para levá-las a isso, é preciso uma causa ‘sagrada’, que faça o mesquinho temor de matar parecer trivial. A religião e o pertencimento étnico se encaixam perfeitamente nesse papel. É claro que há casos de ateus patológicos, que são capazes de cometer assassinatos em massa apenas pelo prazer, apenas por cometer, mas são exceções raras. A maioria precisa ser ‘anestesiada’ contra a sensibilidade elementar ao sofrimento dos outros. Para isso, é preciso uma causa sagrada. Os ideólogos religiosos costumam afirmar que, verdadeira ou não, a religião leva pessoas más a fazer coisas boas; a experiência recente mostra que seria melhor ficarmos com a afirmação de Steve Weinberg de que, se sem religião as pessoas boas fazem coisas boas e as pessoas más fazem coisas más, só a religião consegue levar as pessoas boas a fazer coisas más.” 

(ZIZEK, Slavoj. Vivendo No Fim Dos Tempos. Trad. Maria Beatriz de Medina. São Paulo: Boitempo, 2012 n.p. [epub].)



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