quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Fundamentalismo islâmico de esquerda?



“O preço que alguns membros da esquerda pagam por ignorar essa ‘complicação’ da luta de classes é, entre outras coisas, a aceitação acrítica e demasiado superficial dos grupos muçulmanos antiamericanos e antiocidentais como forma ‘progressista’ de luta, como aliados automáticos: de um dia para o outro, grupos como o Hamás e o Hezbolá aparecem como agentes revolucionários, embora sua ideologia seja explicitamente antimoderna e rejeite o legado igualitário da Revolução Francesa. (A situação chegou a tal ponto que, na esquerda contemporânea, alguns consideram a própria ênfase no ateísmo um complô ocidental anticolonialista.) Contra essa tentação, é preciso insistir no direito incondicional à análise crítica e pública de todas as religiões, inclusive do islamismo – e o mais triste é que seja preciso mencionar isso. Embora aceitem esse ponto, muitos esquerdistas logo acrescentarão que uma crítica desse tipo tem de ser feita de modo respeitoso para não ser condescendente com o imperialismo cultural – o que significa, de fato, que toda crítica real deve ser abandonada, já que a crítica da religião, por definição, ‘desrespeita’ seu caráter sagrado e sua pretensão à verdade.” 

(ZIZEK, Slavoj. Vivendo No Fim Dos Tempos. Trad. Maria Beatriz de Medina. São Paulo: Boitempo, 2012 n.p. [epub].)

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