terça-feira, 10 de novembro de 2020

EUA vs Fundamentalismo Islâmico?


 "Talvez a caracterização mais sucinta da época que começa com a Primeira Guerra Mundial seja a conhecida frase atribuída a Gramsci: 'O velho mundo está morrendo, e o novo mundo luta para nascer: agora é o tempo dos monstros'. O fascismo e o stalinismo não foram os monstros gêmeos do século XX, nascidos um do esforço desesperado do velho mundo para sobreviver e o outro de uma iniciativa bastarda de construir um mundo novo?

[...]

"Um dos sinais do ressurgimento dessa monstruosidade é que as classes dominantes parecem cada vez menos capazes de governar, mesmo que seja por interesse próprio. Tomemos, por exemplo, o destino dos cristãos no Oriente Médio. Nos dois últimos milênios, os cristãos do Oriente Médio sobreviveram a uma série de calamidades, desde o fim do Império Romano: derrota nas Cruzadas, descolonização dos países árabes, revolução de Komeini no Irã etc. – com notável exceção da Arábia Saudita, principal aliado dos Estados Unidos na região, onde não há cristãos autóctones. No Iraque, havia aproximadamente um milhão de cristãos durante o governo de Saddam, e eles levavam exatamente a mesma vida dos outros súditos iraquianos (um deles, Tariq Aziz, chegou a ocupar o cargo de ministro do Exterior e era confidente de Saddam). Mas então aconteceu uma coisa estranha com os cristãos iraquianos, uma verdadeira catástrofe: um exército cristão [EUA/OTAN] ocupou (ou libertou, se preferirmos) o Iraque.

"O exército cristão [EUA/OTAN] de ocupação dissolveu o exército secular iraquiano e deixou as ruas livres para as milícias fundamentalistas muçulmanas aterrorizarem umas às outras e aos cristãos. Não admira que cerca de metade dos cristãos tenha deixado o país, preferindo até a Síria, que apoiava os terroristas, ao Iraque libertado e sob controle militar cristão. Em 2010, a situação piorou. Tariq Aziz, que sobreviveu aos julgamentos anteriores, foi condenado à forca por um tribunal xiita, acusado de ‘perseguição de partidos muçulmanos’ (isto é, por combater o fundamentalismo muçulmano) no governo Saddam. Houve atentados a bomba contra os cristãos e suas igrejas e dezenas de mortos, de modo que, finalmente, no início de novembro de 2010, o arcebispo de Bagdá, Atanasios Davud, aconselhou seu rebanho a deixar o Iraque: ‘Os cristãos têm de deixar o amado país de nossos ancestrais e evitar a planejada limpeza étnica. Isso é melhor do que sermos mortos um a um’. E, para pôr os pontos nos is, por assim dizer, a mídia informou em novembro de 2010 que Al-Maliki havia sido confirmado como primeiro-ministro iraquiano, graças ao apoio do Irã. Assim, o resultado da intervenção dos Estados Unidos foi que o Irã, principal agente do eixo do mal, está prestes a dominar politicamente o Iraque.

"A política norte-americana aproxima-se definitivamente da loucura, e não só na política interna, em que o Tea Party propõe combater a dívida nacional reduzindo os impostos, isto é, aumentando a dívida (não podemos deixar de lembrar aqui a famosa tese de Stalin de que, na União Soviética, o Estado enfraquece com o fortalecimento de seus órgãos, sobretudo os órgãos de repressão policial). Na política externa, a disseminação dos valores judaico-cristãos ocidentais cria condições para a expulsão dos cristãos (que talvez possam ir para o Irã...). Definitivamente, isso não é um choque de civilizações, mas um diálogo e uma cooperação verdadeiros entre os Estados Unidos e os fundamentalistas muçulmanos." 

(ZIZEK, Slavoj. Vivendo No Fim Dos Tempos. Trad. Maria Beatriz de Medina. São Paulo: Boitempo, 2012. n.p. [epub])

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